Crise no transporte se arrasta ano após ano em São Luís; entenda por que a greve virou rotina

O roteiro é conhecido: rodoviários anunciam greve após negociações fracassadas, empresários alegam dificuldades financeiras, Prefeitura bate o pé a respeito de novas licitações para o transporte, o poder público tenta intermediar acordos de última hora e, no fim, a população paga a conta ficando sem ônibus. Em São Luís, essa sequência deixou de ser exceção e virou regra.
Nas primeiras horas desta sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, rodoviários da Grande São Luís iniciaram mais uma greve geral, após rejeitarem a proposta de reajuste salarial de 2% apresentada pelas empresas do setor. As garagens amanheceram fechadas, paralisando o transporte coletivo na capital e nos municípios da região metropolitana, que juntos atendem cerca de 700 mil usuários por dia.
Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Maranhão (Sttrema), a categoria reivindica reajuste salarial de 15%, tíquete-alimentação de R$ 1.500 e a inclusão de mais um dependente no plano de saúde. Uma audiência de conciliação está marcada para esta sexta-feira (30), às 15h, no Tribunal Regional do Trabalho da 16ª Região, com a presença de rodoviários, empresários, Agência de Mobilidade Urbana (MOB) e Prefeitura de São Luís.

2025: quatro greves gerais em um único ano
A paralisação iniciada hoje ocorre poucos meses após um ano inteiro marcado por sucessivas greves. Ao longo de 2025, São Luís registrou quatro greves gerais de ônibus, escancarando a instabilidade do sistema:
Fevereiro de 2025: greve geral paralisou o transporte coletivo no início do ano após impasse nas negociações salariais.
De 14 a 26 de novembro de 2025: rodoviários da empresa 1001 cruzaram os braços por atrasos de salários e benefícios; a paralisação durou cerca de 12 dias.
Novembro de 2025: trabalhadores da Expresso Marina aderiram ao movimento, ampliando a paralisação e afetando dezenas de bairros da capital.
Dezembro de 2025: nova greve da empresa 1001, às vésperas do Natal, voltou a deixar a população sem transporte regular.
Na prática, isso significa que, em menos de 12 meses, usuários enfrentaram interrupções severas no serviço em fevereiro, novembro e dezembro, além de agora, já em janeiro de 2026.
Sem plano estrutural, crise se repete
O histórico revela um problema estrutural: as negociações só avançam sob ameaça de greve, acordos são firmados de forma paliativa e nenhuma solução de longo prazo é implementada. O modelo de transporte coletivo segue dependente de subsídios públicos, mas sem transparência suficiente sobre custos, contrapartidas e qualidade do serviço prestado.
Para agravar o cenário, uma decisão judicial proibiu a Prefeitura de São Luís de oferecer vouchers para corridas por aplicativo, como alternativa emergencial durante greves. Com isso, quando os ônibus param, não há plano B para a população, que fica refém de longas caminhadas, transporte irregular ou gastos extras.
Enquanto rodoviários, empresários e poder público não rompem esse ciclo, São Luís segue presa a um sistema instável, onde a crise no transporte se repete ano após ano, e onde quem depende do ônibus continua sendo o elo mais frágil dessa cadeia.



